sâmbătă, noiembrie 11, 2006

Tão perto e tão longe...

“Os homens estão tão próximos e tão distantes” a professora havia escrito no quadro-negro. Na verdade ele nunca entendera porque negro se o quadro era verde. “Eu quero uma dissertação sobre este tema para a próxima aula”. Então o sinal tocou e pelos corredores era possível ouvir toda a arruaça típica de final de aula. Pacientemente o garoto guardava os lápis no estojo e o estojo na mochila. Era sua mãe quem sempre vinha lhe buscar e ela costumava se atrasar.
Foi andando lentamente até a saída onde outros alunos esperavam seus pais, mães, topics, ônibus ou simplesmente ficavam jogando conversa fora antes de voltarem pra casa. Sentou, abriu um livro, mas não conseguiu se concentrar, o barulho era muito alto. Resolveu então dar uma olhada no tema da dissertação para o outro dia, pois nem tinha prestado muita atenção. “Tão próximos e tão distantes”, um paradoxo interessante.
Olhando apenas para o seu caderno o garoto não pôde ver o menino que chorava porque sua mãe estava demorando ou a garota que havia brigado com o namorado no dia anterior e que tudo o que precisava era alguém pra conversar e se sentir menos só.
Uma buzina familiar lhe despertou. Pegou a mochila, passou pelo menininho que achava que a mãe lhe esquecera, pela garota com o coração despedaçado e por tantos outros
“tão próximos e tão distantes”.
“Põe o cinto” “Como foi a aula?” “O que você acha de pizza pro almoço?”
Respondendo com monossílabos, a cabeça do garoto ainda estava na frase da professora. Mas quem está distante?, pensava ele. Acho que as pessoas nunca estiveram tão próximas. Chegando em casa ligou a TV e assistiu passivamente notícias de pessoas que não conhecia. Se aborreceu com as notícias que eram sempre as mesmas (corrupção, violência, miséria) e foi pro seu quarto. Fechou a porta e ligou o som no talo. Porém logo sua mãe apareceu pra lhe chamar pra comer e – abaixar o volume.
Resmungando, comeu seu pedaço de pizza e foi pro computador. Encontrou um colega de sala on-line no MSN e perguntou se ele já havia conseguido fazer a redação. O garoto falou que não, estava com uns problemas em casa. Nem se deu ao trabalho de perguntar o que havia acontecido: desligou o pc e foi novamente pra sala.
E assim foi sua tarde: alternando entre TV, som e PC. E então, quando reparou já estava tarde. Foi dormir para no outro dia fazer tudo igual novamente.
O despertador tocou, levantou, vestiu o uniforme, tomou café e foi pra escola. Chegando lá lembrou que não havia feito a redação. Passou pelo menininho inseguro, pela garota que se sentia sozinha, pelo colega com problemas em casa e então entregou uma folha em branco à professora, tão próxima e tão distante.

marți, noiembrie 07, 2006

Enquanto esperava a água ferver, ligou o aparelho de som. O radialista anunciou “21 graus em Porto Alegre, tempo bom, céu ensolarado.” Olhou pra fora e viu um tempo frio e nublado. Era estranho imaginar que em outro lugar o tempo estava diferente. Desde pequena sempre tivera a impressão de que se chovia lá fora chovia em todos os lugares.
Desligou o som, preparou um café, escovou os dentes e saiu. Pelo caminho viu crianças em um parquinho brincando e rindo e novamente não entendeu como podia ter gente feliz se ela se sentia tão triste.
Chegou ao trabalho onde as mesmas caras desanimadas a esperavam. Guardou sua bolsa na gaveta, ligou o computador, digitou a senha – o nome do seu ex-marido – e ficou pensativa. Já fazia quase 1 mês que ela a deixara, na verdade a trocara por uma loira de 20 anos, e ela não conseguia ter raiva dele. O único sentimento que conseguia ter era pena – por si mesma.
O telefone tocou. Era um colega do seu chefe. Repassou a ligação e ficou imaginando o rosto do dono da voz a espera na linha. Sabia que morava em outra cidade e que era dono de um frigorífico, fora isso, não sabia mais nada. Oh céus, até a vida de um açougueiro parecia mais interessante que a sua.
Arquivou alguns recibos, digitou uns poucos pedidos e então o sinal tocou anunciando a hora do almoço. Suas companheiras convidaram-na para almoçar em um restaurante a duas quadras dali. Recusou gentilmente alegando problemas financeiros, afinal agora não tinha mais o marido para ajudar nas finanças da casa.
O escritório mergulhou em um silêncio profundo, rompido apenas pelo som das mordidas no sanduíche de atum. Jogou o papel alumínio no lixo, foi até o banheiro e jogou uma água fria no rosto pra ver se acordava... pra vida. Se olhou no espelho e só encontrou defeitos: um fio branco aqui, uma espinha ali, uma gordurinha sobrando lá do lado,... Voltou para sua mesa e novamente fez pedidos, arquivou recibos, repassou ligações.
Voltou para casa, sentou no sofá e ligou a TV. A mulher do tempo anunciou chuva para o outro dia para todo o país. Uma pontinha de esperança iluminou seu rosto: será que assim como o tempo harmonioso para todos, os sentimentos também se convergiriam? Será que todos entrariam na sua apatia ou ela finalmente conseguiria ser feliz como os outros?
O despertador anunciou um novo dia. A mulher abriu a cortina e viu que a previsão não falhara: um verdadeiro dilúvio estava acontecendo do lado de lá da janela.
Chegou ao trabalho alegre por pensar que todo mundo finalmente entenderia como ela se sentia. Esses pensamentos foram pelo ralo junto com a chuva: todos estavam iguais, agindo como se nada tivesse acontecido.
Sentou na sua mesa, guardou a bolsa na gaveta, digitou o nome do ex-marido e abraçou sua rotina: sua única amiga.

miercuri, noiembrie 01, 2006

Da arte de separar pepinos das cebolas


A voz na frente da sala de aula parecia distorcida por causa das mãos que tapavam seus ouvidos. Será que se voltasse as falas do seu professor de física encontraria mensagens do demo ou respostas para suas perguntas?
A sua volta ninguém parecia se importar. Canetas desenhavam caracteres em páginas que serão amareladas pelo tempo, de pessoas que vão morrer com o tempo. Memórias são eternas. Os momentos não.
Gostava de observar os outros, numa estúpida esperança de que alguém lhe observava também. Olhava as meias dos colegas procurando alguma relação entre elas. Parecia uma autista vendo os pés dos outros. Viu uma formiga se aproximar na carteira ao lado. Desejou ter poderes paranormais para entortar colheres e derrubar formigas apenas com o pensamento.
E desejou ter outros poderes. Quis ficar transparente para dar um chute no professor. E quis ser uma mosquinha para saber o que as pessoas falavam dela quando ela saía da roda.
E continuou imaginando como seria fazer as coisas que têm vontade. Carregando sua folhinha, a formiga nem imaginava o que passava na cabeça da garota que tinha um olhar fixo em um ponto qualquer do quadro negro mas com os pensamentos longínquos.
A garota olhou pela janela e viu um lindo céu azul lá fora. Desejou poder voar naquela pureza atraente. Olhou para o professor, depois para as pessoas massificadas ao seu redor e se dirigiu até a janela. Sentiu o aroma da primavera, escalou a parede, ficou de pé na soleira e então mergulhou no infinito.