joi, decembrie 28, 2006


Do alto da sua nuvem o anjo brinca de observar as pessoas. São todas tão engraçadinhas. Mesmo sabendo que suas vidas são insignificantes e que não passam de poeira no vento, se dão ao trabalho de tentarem organizar as coisas ao invés de desfrutar o pouco tempo que elas têm. E discutem, brigam, se acertam e o grande relógio da vida dá as badalas: é hora de fazer acontecer. Mas ninguém ouve o relógio, que continua a dar badaladas no silêncio, assim como os atos dos humanos. Badaladas no silêncio. Mudas badaladas que ecoam pelos séculos..

luni, decembrie 18, 2006

Da série "Tão perto e tão longe"

Acordou atrasado, como toda segunda-feira. Tomou um gole de café frio, trocou de roupa e saiu. Ia a pé ao trabalho, que ficava a 20 minutos da sua casa. Andava apressado mas não deixou de reparar nas pessoas que encontrava todos os dias. É curioso como passando todos os dias pelos mesmos lugares encontramos sempre algumas pessoas. Cada uma com sua rotina, suas obrigações, seus pensamentos. Será que encontraria a bela mulher que via todos os dias?
Já perto do “local de encontro” começou a imaginar com que roupa estaria ou se estava com o mesmo cabelo. Poderia ter cortado no final de semana. Como será que tinha sido seu final de semana? Será que tinha saído com as amigas, ou pior, com o namorado?
Virando a esquina pôde avistar a mulher em quem estava pensando. Usava uma saia florida e uma blusa vermelha. O cabelo ainda estava igual; solto, dançava nos ombros conforme a melodia do vento.
O homem abaixou a cabeça com medo que seus pensamentos fossem descobertos. A mulher olhou no relógio e apressou o passo. Cada um seguiu seu caminho.
Chegando ao trabalho ele logo se esqueceu da mulher que nem sabia quem era, esqueceu que seu estômago roncava de fome por não ter tido tempo de tomar café e esqueceu que lembrou que esqueceu de ligar pra sua mãe. Havia tanta coisa pra fazer no trabalho que ele só teve tempo de parar ao final do dia, já voltando pra casa.
Parou na panificadora ao lado da sua casa e pediu 2 pães: um pra janta e outro pro café da manhã, na esperança que no outro dia não acordaria atrasado e teria tempo de ao menos comer alguma coisa.
Chegou em casa, ligou a TV e viu que 15 pessoas morreram em Israel num atentado palestino; viu que 2000 pessoas estavam desabrigadas em Minas Gerais devido à chuva e que o dólar subiu.
Comeu seu pão, tomou banho e foi dormir. Mesmo com um dia tão cheio a sensação que tinha era de um vazio, como se algo estivesse faltando.
O despertador anunciou um novo dia, dessa vez com tempo pra tomar café e não precisar sair correndo. Olhou pra fora, o dia estava ensolarado. Escolheu uma camisa verde para usar e saiu.
Passou pelo ponto de ônibus onde o estudante esperava pra ir à escola, outros adultos como ele estavam indo trabalhar e o velhinho que não tinha nada pra fazer ia passear com os vale-transportes que ganhava da prefeitura.
Dobrando a esquina, avistou a mulher que dessa vez usava uma calça preta e uma blusa verde também. Será que ela também percebeu a coincidência? Pensou em sorrir enquanto passava por ela ou então até dizer um singelo “bom dia” mas achou que seria atrevimento demais. Simplesmente baixou a cabeça e foi andando assim até o trabalho. Lá, os mesmos problemas de sempre o esperavam e então ele teve um outro dia cheio e só pôde respirar aliviado novamente na volta para casa. Parou na panificadora e notou que era uma balconista agora. Devia ser a folga do rapaz que sempre o atendia, afinal parece que todas as pessoas têm uma folga, menos ele.
Chegou em casa mas sentia-se indisposto pra comer. Sentou no sofá e acabou cochilando. Quando acordou sobressaltado no outro dia notou que algo estava diferente. Caminhou dois passou e se sentiu cansado. O estômago roncava de fome mas só de pensar em comida sentia ânsia. Ligou para o trabalho e avisou que não estava se sentindo bem por isso não ia trabalhar. Deitou na cama e só levantou de tarde ,quando se sentia com forças suficientes para ir até o médico pegar um atestado, senão esse dia seria descontado do seu salário.
Na clínica o doutor lhe examinou superficialmente e disse que era uma virose. Indignado, ele disse que quando os médicos não sabem o que o paciente tem dizem que é virose. O médico meio sem jeito explicou que não é bem assim; que as viroses são comuns e que só naquele dia já havia examinado cinco pacientes com os mesmo sintomas que ele.
Aquilo lhe embrulhou o estômago ainda mais. Era como se deixasse de ser quem era pra se tornar um número, apenas mais um na multidão, uma porcentagem insignificante duma pesquisa do IBGE. Era o sexto paciente com virose daquele dia, a senha 56 da farmácia, um dos 184.739.395 de brasileiros. Novamente a sensação de vazio atormentou-lhe a mente. Não era especial pra ninguém. Para as pessoas, ele era só mais um. Adormeceu mesmo com tantos pensamentos obscuros.
Quando o despertador tocou no dia seguinte já sentia-se melhor. Olhou para fora e viu que o céu estava nublado. Vestiu uma camisa cinza e saiu. No ponto de ônibus viu o aluno, os adultos e o velhinho. Porém, dobrando a esquina não viu a mulher que gostava de encontrar “por acaso”. Será que teria se atrasado ou quem sabe pegado uma virose?
À noite na TV viu que sete pessoas morreram em atentados na faixa de Gaza, que foram encontrados fósseis do que pode ter sido um dinossauro, que uma mulher foi atropelada e morreu enquanto ia ao trabalho por um bêbado e que o dólar voltou a subir.
Nunca mais cruzou com a bela mulher novamente. Ela agora, era só uma estatística.

marți, decembrie 05, 2006

Do dia em que me percebi adulta


Existe um joguinho do sítio do pica-pau amarelo em que as crianças têm que cuidar bem dum bichinho, alimentá-lo, dar banho e quando elas fazem tudo isso o bichinho cresce assim, PUF, do nada fica grande. Eu como educadora (háá me senti tão chique agora xD) nunca concordei muito com isto, afinal que imagem as crianças vão criar nas suas cabecinhas desmioladas sobre crescimento?Na minha cabecinha a gente vai crescendo aos pouquinhos, lenta e sutilmente. Até que...

Eu entrei na papelaria hoje e então vi todas aquelas coisas brilhantes e chamativas. Sempre fui apaixonada por material escolar e então estava com os olhinhos brilhando vendo os cadernos e pensando em qual usarei no ano que vem quando de repente me lembro "não vai ter ano que vem". Me senti uma adulta assim do nada, PUF, e então olho assustada ao redor pra ver se alguém estranhou esse meu crescimento repentino. Nada, nem um olharzinho. Saio frustrada da loja e vou andando pela rua com medo de dar mais um PUF e eu virar uma gigante ou coisa assim.Vou andando a passos curtos, porque como toda boa adulta, estou atrasada. Pra que eu não sei, mas eu estava.Então um cara me parou na rua, queria fazer uma pesquisa sobre o mercado de trabalho. Foi o auge da minha adultice. Me senti tão adulta, mas tão adulta que fui andando e dizendo 'desculpa, não tenho tempo'. Ele ainda tentou me acompanhar mas acabou desistindo. Eu devia ter pegado meu celular inventado um número e dito 'compra todas as ações da companhia X ou Y' mas talvez ficaria feio uma adulta com um celular com chaveiro do Bisonho.Andando fui observando todos os adultos e suas vidas chatas. Fiquei pensando em como é triste ter que se preocupar com contas a pagar ou com picuinhazinhas no serviço. Saquei que droga é virar adulto e perder a imagem inocente das pessoas.Tinha cansado de ser adulta. Porém, me lembrei que no joguinho do sítio não era possível voltar. A criança ia cuidando do bichinho e ele ia crescendo crescendo e então morria.Entrei assustada novamente na papelaria e comprei massinha de modelar (freud explica?). Resolvi adiar minha adultice, afinal minha vida é mais complexa que um joguinho de computador. Retrocedi alguns anos e fui brincar com a massinha.