marți, aprilie 10, 2012

O conto do estranho (des)conhecido

Antes de sair de casa conferiu se todas as bocas do fogão estavam apagadas e se a janela do quarto estava fechada. Não parecia que ia chover, mas era comum o tempo mudar naqueles dias.

Pegou sua bolsa, trancou a porta, guardou a chave na bolsa, tirou os óculos escuros de dentro dela e desceu os quatro lances de escada pensando nas coisas que ainda tinha pra fazer ao longo do dia. Quando chegou no ponto de ônibus, um rapaz que já estava ali esperando acenou com a cabeça, lhe cumprimentando. Ela respondeu do mesmo jeito e a interação acabou aí.

No ônibus, colocou os fones de ouvido e foi escutando música pelo caminho. Na hora de descer do ônibus, notou que o homem que havia lhe cumprimentado antes desceu no mesmo ponto que ela. Seria por isso que ele havia lhe dirigido a atenção?

O pensamento logo foi afastado por uma bela canção que tocava na rádio on-line. Deu tempo de ouvir ela inteira antes de ter que desligar, tirar os fones e começar outra longa tarde de trabalho repetitivo.

No dia seguinte, encontrou novamente o rapaz, só que dessa vez na volta para casa. Isso significava que ele tinha horários muito parecidos com os dela. Novamente ele a cumprimentou, e ela respondeu com um sorriso sem dentes.

E assim passou uma semana, duas, um mês, dois meses. Vários acontecimentos lotavam sua cabeça, estava numa correria danada tentando dar um novo rumo a sua vida.

Saiu do emprego, entrou no programa de mestrado e, um dia, voltando para casa de ônibus, encontrou o velho desconhecido. Ele acenou, ela retribuiu. Mesmo com mudanças, é bom que algumas coisas permaneçam docemente familiares.

vineri, martie 25, 2011

Não deve ser tão difícil. É só deslizar os dedos pelas teclas, deixando fluir os pensamentos. É só tentar imitar o gesto das outras vezes, quando as palavras simplesmente vinham e vinham, como um rio em que não se vê sua nascente, mas se segue seu curso, fascinante e misterioso.
Como um pianista inventando uma nova composição, cada tecla uma nova inspiração.
Talvez os sentimentos tenham ficado guardados tempos demais, e agora não conseguem se libertar. Não encontram seu rumo e se desmancham antes de virar palavra.
Talvez não haja nada a dizer, e o silêncio seja o novo companheiro.

sâmbătă, martie 10, 2007

Eram tantos sonhos perdidos. Sentada em um velho sofá rasgado, consumido como ela pelo tempo, ela não era capaz de dizer onde errou. Em qual parte de sua vida pegou um caminho errado que a conduzira até ali. E o pior de tudo: não sabia como voltar. Muito menos pra onde voltar. Nenhum lugar parecia seu. Não se sentia confortável em nenhum ambiente. Um coração vazio. Era um ser infeliz. Essa era a verdade, e era duro encarar isso.
O erro foi crescer. Mas o que podia ter feito? Lutar contra o tempo é o mesmo que lutar contra moinhos de vento.
Era tão doce sua infância. Tão bom acreditar de verdade nas pessoas, nos sonhos, nas ilusões.
Ela se lembra certinho do primeiro dia do começo do fim do seu conto-de-fadas: percebeu que seus pais não eram heróis e sim pessoas comuns, que assim como ela, tinham seus defeitos e faziam algumas coisas erradas de vez em quando. Nesse dia ela se escondeu embaixo das cobertas e desejou morrer. Mas ela não morreu. E a vida continuou.
E como se fosse uma fila de dominós despencando, sua vida estava fora de seu controle. Seu mundo desabava a cada dia. A cada momento. Como se fosse água escorrendo entre seus dedos. Ela não conseguia segurar nada ela simplesmente sentava e via o mundo desabar sobre sua cabeça. E quando parecia que tudo já estava arruinado acontecia mais alguma coisa de ruim. Mais uma decepção,mais um sonho arruinado, mais um desfecho inesperado.
Olhando-se no espelho não se reconhecia. Da onde tantas rugas surgiram de repente? Onde ficou sua juventude?
Lembrava-se como se fosse ontem do seu primeiro namorado, das juras eternas de amor trocadas e logo quebradas. Dos amigos que ficaram pra trás. Das festas que nunca foi por não ter roupa ou coragem de ser feliz.
Olhava as lacunas de tempo em branco nos seus dias. Por que não os aproveitou para viver intensamente? Já que a morte é certa, por que não correr o risco de desfrutar tudo que se pode sem medo?
Por que não aceitou o convite pra sair? Por que teve medo de se molhar na chuva? Por que perdeu tantas horas na frente da TV, mas nunca mais lera um livro?
Olhou pro sofá rasgado e percebeu que os furos não eram definitivos. Talvez não seja possível encontrar o mesmo tecido, mas remendos são melhores que rasgos.
Decidiu conduzir a linha da sua vida. Era hora de consertar os buracos.
Não era tarde pra viver.