O conto do estranho (des)conhecido
Antes de sair de casa conferiu se todas as bocas do fogão estavam apagadas e se a janela do quarto estava fechada. Não parecia que ia chover, mas era comum o tempo mudar naqueles dias.
Pegou sua bolsa, trancou a porta, guardou a chave na bolsa, tirou os óculos escuros de dentro dela e desceu os quatro lances de escada pensando nas coisas que ainda tinha pra fazer ao longo do dia. Quando chegou no ponto de ônibus, um rapaz que já estava ali esperando acenou com a cabeça, lhe cumprimentando. Ela respondeu do mesmo jeito e a interação acabou aí.
No ônibus, colocou os fones de ouvido e foi escutando música pelo caminho. Na hora de descer do ônibus, notou que o homem que havia lhe cumprimentado antes desceu no mesmo ponto que ela. Seria por isso que ele havia lhe dirigido a atenção?
O pensamento logo foi afastado por uma bela canção que tocava na rádio on-line. Deu tempo de ouvir ela inteira antes de ter que desligar, tirar os fones e começar outra longa tarde de trabalho repetitivo.
No dia seguinte, encontrou novamente o rapaz, só que dessa vez na volta para casa. Isso significava que ele tinha horários muito parecidos com os dela. Novamente ele a cumprimentou, e ela respondeu com um sorriso sem dentes.
E assim passou uma semana, duas, um mês, dois meses. Vários acontecimentos lotavam sua cabeça, estava numa correria danada tentando dar um novo rumo a sua vida.
Saiu do emprego, entrou no programa de mestrado e, um dia, voltando para casa de ônibus, encontrou o velho desconhecido. Ele acenou, ela retribuiu. Mesmo com mudanças, é bom que algumas coisas permaneçam docemente familiares.
