duminică, octombrie 29, 2006

Quem disse que crescer não dói?


Embora fosse 3 da madrugada, fora estava mais claro do que dentro da garota. Tudo lhe parecia confuso e obscuro e nada parecia fazer sentido. Ela queria parar de chorar, mas as lágrimas insistiam em escorrer pelo seu rosto como se a tristeza tivesse vontade própria pra aparecer, mas nunca pra ir embora.
Era comum ver na televisão médicos explicando as dores musculares normais do crescimento. Mas por que ninguém falava da dor no músculo cardíaco? Por que ninguém dizia que era tão difícil deixar de ser criança?
Pensava em como as coisas eram simples quando suas preocupações se resumiam a qual Barbie escolher para brincar ou com que cor de vestido ir à festinha de aniversário de algum colega. Não concordava quando lhe diziam que a vida é simples e nós que a complicamos. Não, não era ela quem complicava a sua vida, eram os outros. O que ela na verdade queria era poder fazer as coisas serem mais fáceis.
Gostava das coisas simples. Gostava de deitar na grama e ver desenho nas nuvens. Gostava de se lambuzar com sorvete, de passar uma tarde falando besteiras, de chorar em um filme água com açúcar e de fechar os olhos em alguns momentos e apenas sentir. Sentir o vento, sentir o doce aroma da primavera, o som dos carros distantes e a paz em seu interior. Porém já não era mais capaz de dizer quando foi a última vez que fez todas essas coisas que lhe davam tanto prazer. Culpa dessa vida “moderna”. Não foi a garota quem escolheu. Trocaram por ela uma roda de amigos por amigos virtuais. Trocaram ver uma bela paisagem por uma televisão na sala. Trocaram o sabor puro das refeições por comida congelada. Trocaram as coisas simples da vida por uma vida mecânica.
Pensar em tudo o que ela poderia ter feito e não fez a corria por dentro. Chorava por todas as palavras que não disse, todas as alegrias que não viveu. Chorava por pensar que estava envelhecendo e que logo as coisas se tornariam ainda piores e mais rotineiras. Pensar em tudo isso lhe abatia e o travesseiro agüentava mudo as lágrimas que sobravam pra ele.
Por que não ensinam nas escolas que ninguém é perfeito? Assim seria mais fácil de aceitar os defeitos das pessoas e os nossos próprios. Por que não ensinam que o amor também fere? Por que só ensinam a força que a Terra exerce sobre cada um, mas não a força que o ódio exerce em cada um? Por que se aprende a calcular a intensidade de tantas coisas inúteis mas não a intensidade das palavras? Por que não se aprende desde cedo o quanto viver dói?
E naquela noite fria onde o travesseiro era o único cúmplice a garota chorou um choro amargo que ressecou sua pele e seu coração. E ela cresceu, mas as dores desse crescimento não diminuíram nem muito menos pararam com o tempo,ao contrário, apenas aumentaram, mesmo a garota - agora mulher - achando que já havia crescido o suficiente.

marți, octombrie 24, 2006

Blog novo com textos velhos


É sempre bom fazer uma faxina, seja no quarto, nos livros ou no coração. Temos a oportunidade de encontrar coisas que nem lembrávamos que tinha e jogar fora coisas que não nos servem mais. Dessa vez fiz uma faxina na minha pasta com textos e acabei encontrando esse aqui, da minha fase "dark". Gostei, porque hoje em dia não consigo mais escrever nesse estilo meio gótico.

Algo de errado no mundo das coisas perfeitas
Não era bem assim que a gente planejou?
Você está me ouvindo?
O barulho que se ouve de dentro abismo é insuportável
O vento está cortando a minha pele e minhas lágrimas estão secando
Acreditamos quando nos disseram que se a gente tivesse um ao outro isso seria suficiente
Aceitamos pular para dentro do abismo
Aceitamos entrar na escuridão
E eu já não consigo mais distinguir aonde está doendo
Oh não, estamos nos afastando
Agora estou sem ninguém e sem você
Mas será que eu te tive um dia?
Tomara que no fundo do poço aja algo cortante.
Melhor morrer logo do que ficar sangrando aos poucos.
Tarde demais pra tentar procurar num rosto de mármore um sorriso.

duminică, octombrie 01, 2006

da continuação dos meus monólogos


Era um dia infernalmente quente. Andava pela rua apressada pois só assim não chegaria atrasada na biblioteca. Tínhamos um trabalho em equipe pra fazer e os outros já deveria estar lá. Não havia tempo a perder, mas como Murphy rege minha vida, o sinal resolveu fechar pra pedestres justo na hora que eu queria atravessar. Olho pro relógio e percebo algo no chão se movimentando. Minha sombra! Começo a fazer gestos, que nem crianças quando descobrem o efeito que o sol causa, mas pro meu espanto, percebo que minha sombra não me acompanha. Mexo meu braço direito enquanto que vejo a imagem escura balançando a cabeça. Penso ser uma insolação, então me sento no meio-fio. Incrivelmente minha sombra se senta ao meu lado. Outra lição de moral? (vide poste de 01 de agosto do meu outro blog). Não não sem lições de moral ela me disse. Por onde ela falou não reparei, nem muito menos como ela adivinhou meus pensamentos. Sou sua sombra, é natural que saiba seus pensamentos. Mas que coisa confusa eu disse, ou pensei, o que nessa altura dava na mesma. Você veio pedir aumento ou melhores condições de trabalho? Ri, imaginando como seria um aumento do salário de uma sombra: mais 2h de sol por semana. Ou 2h de sombra? Vai saber, nunca fui sombra.
Então, ela continuou. Tudo o que eu queria era ser gente uma vez só. Poder olhar o mundo de cima e tentar entender como é. Você toparia inverter os papéis só por uma tarde? Topei com a condição de passarmos então na biblioteca e avisarmos os meus colegas que hoje não poderia me preocupar com hipérboles. Hoje estaria realizando o desejo duma sombra.
No começo não foi fácil. Eu tive que me deitar no chão e tentar acompanhar os passos de um ser feito duma cor só, sem rosto ou roupas ou qualquer coisa. Lá de baixo pude ouvir os gritos das pessoas na rua quando se deparavam com a pitoresca cena, mas nunca imaginei que meus amigos fossem desmaiar só por causa disso.
Fomos então passear em jardins e gramados pois ela queria ter a sensação de se perder olhando pro infinito. No caminho encontramos mais gente com o pensamento limitado, mas pude descobrir então o fabuloso mundo das sombras. Virei amiga de uma em especial, gordinha e pequenininha que me contou um pouco da sua vida. À noite, todas se juntavam em um grande galpão onde contavam sobre seu dia e podiam descansar um pouco. Apenas nas noites de lua cheia deviam trabalhar. Durante o dia, acompanhar sempre o amo, senhor, ou como quisesse chamar. Fiquei com muita pena das minhas companheiras, pois sempre me ensinaram na escola que a sombra nada mais era do que uma imagem. Comentei isso com ela e então ela falou que era mais ou menos isso. Interessada, queria saber mais, mas ela não quis me contar. Decidi então esperar até o anoitecer para poder me juntar com as outras e descobrir como era o seu mundo. Minha sombra, que nessa altura era eu, não se opôs, pelo contrário, ficou muito feliz por poder desfrutar mais um pouco da sua vista perpendicular.
A noite caiu e fiquei com medo por não saber como chegar, mas novamente achei sombras boas, dispostas a me ajudar. Como estava escuro, não precisávamos seguir pelo chão, podíamos ir flutuando. É o que os humanos chamam de brisa noturna. Nada mais do que sombras livres no espaço. Pensei que encontraria um local colorido e aconchegante, mas ao contrário, o galpão era obscuro e tenebroso. “Pra podermos passar mais tinta escura, caso estejamos clarinhas demais” alguma delas me disse. Naquela escuridão toda não conseguia identificar nada.
“Quem é você?” uma voz grave e de tom severo me perguntou. Eu sou a Buca, oras. Que audácia, o cara nem me conhecia. “Buca, não há nenhuma sombra com esse nome”. É que eu não sou uma sombra, respondi. “Então o que faz aqui?”. Expliquei-lhe toda a história e ele falou que isso ia contra o regulamento das sombras, mas que eu não tinha como saber e que não era, portanto a culpada. Mandou chamar minha sombra, e enquanto isso ficamos conversando. Eu perguntei, afinal, quem eram eles. E então ele me explicou: “Quando uma pessoa é extremamente ambiciosa, só deseja pra si o topo, o lugar mais alto seja onde for. Todos nós éramos assim, e como castigo fomos mandados para o chão, para a posição mais baixa. Devemos ficar ali até aprendermos nossa lição.”
Queria continuar fazendo mais perguntas pra entender esse estranho mecanismo, mas nessa hora minha sombra chegou, e então fui mandada de volta pra casa. Sem sombra porque era lua nova.